guilherme
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[Sábado, Agosto 08, 2009]

virgin boy



They say I'm a virgin boy
That's because I never used my toy



por Gui em [2:36 AM]
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[Sexta-feira, Maio 08, 2009]

você cheira a cigarros de cereja



Eu continuo fumando cigarros. Mas somente os de cereja, porque são suaves, assim como minhas mentiras.
Caminho e trago, e a fumaça se confunde com as inverdades que saem da minha boca.
[...]
E tudo acaba nas cinzas da bituca jogada no chão.

Penso que um dia morrerei. Penso não. Tenho certeza. Estarei sentado, sozinho como sempre, cheiro de cereja na boca, um cigarro escorregando dos meus dedos, uma cinza grande, pois mal fumei o cigarro dessa vez...

E durmo. E minto. Porque não passo de um escritor. Um fumante de cigarros de cereja.



por Gui em [9:53 PM]
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[Quarta-feira, Abril 29, 2009]

constelação



Estava, como sempre, deitado na cama do meu quarto, observando as estrelas.
Foi quando percebi:
- Onde está o teto?



por Gui em [4:23 PM]
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nunca fui muito bom em quase nada. desde pequeno.



Às vezes eu teimava em soltar pipa
E ela teimava em continuar no chão.
Ou quando eu ia nadar
Até os peixes me expulsavam do rio.
Só consegui começar a falar com 6 anos de idade...

Todos os meus amigos sabiam desenhar sonhos, castelos, estrelas, gatos e velhinhos de chapéu.
Mas eu, com a caneta, só sabia borrar minha mão, meus desejos e o pedaço do papel.

Nunca soube pilotar um helicóptero e nem fingir gostar das pessoas. Não sei comer algodão-doce, nem fazer filhos. E é assim até hoje...

Meu cabelo já está branco. Minha mão esquerda não para de tremer. Os ossos parecem mais pesados do que jamais foram.
Só agora eu percebi:
Nunca fui muito bom em quase nada. Desde pequeno.



por Gui em [4:19 PM]
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suicídio etc.



Coração partido provoca esse tipo de ato. O álcool ajuda. E ele sentado na poltrona. Decidiu ver TV; melhor não, que isso não é coisa boa na hora da morte. Olhou para o apartamento como se se despedisse, ou talvez só estava tentando contar os cacos (do coração) espalhados na sala de estar.

Nada de comprimidos, porque ele queria algo rápido. Nem sacada; também não queria ser drástico. Tentaria um clássico, afinal os clássicos estão na moda.
Se dirigiu à cozinha para pegar uma faca. mas a escolha era difícil. Escolheria a faca que cortou o peru de natal ou a do queijo do café-da-manhã?
Escolha feita.

O banheiro era a próxima parada. Foi para a pia. Entupida. Não, não; isso seria bom. Ligou e deixou a água quente tomar todo o espaço. Colocou os pulsos. Não sabia para que servia, mas tinha visto em um filme e queria experimentar. Essa seria sua única (e última) oportunidade.

Depois disso, o quarto. Encostou-se na cabeceira da cama e esticou as pernas. Fez os cálculos mentais: qual pulso seria o primeiro, o tamanho do corte e onde seria a linha vertical (ah! ele também já sabia que uma horizontal não traria um bom resultado! - presente de um de seus filmes das madrugadas de quarta).

Pronto, já estava feito. O líquido viscoso, negramente vermelho se misturava com as lágrimas, com o sal, com o suor, com o ódio, com a faca. Quase não sentia dor agora. Deitou-se um pouco mais, os olhos pesavam. Ainda conseguiu ouvir o barulho da água quente no banheiro que transbordava pela pia.







"Ele não teme a morte, mas é esta velha e putrefata senhora que a todos aguarda no fim da vida."



por Gui em [4:08 PM]
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[Sexta-feira, Fevereiro 27, 2009]

conto de uma tarde de verão



O garoto do cabelo desgrenhado entrou na pousada. Queria fazer o check-in.

Da recepção, duas velhas senhoras o observavam. Clara e Gema eram seus nomes. Alguns as chamariam gêmeas. Mas elas preferiam se nomear frutos de uma barriga sem criatividade.

- Bom... - disse uma.
- Dia! - completou a outra.
- Podemos... - a primeira começou.
- Ajudar? - a segunda terminou.
- Quero... - o jovem começou a falar, mas ficou triste quando percebeu que não tinha ninguém para terminar sua frase - Quero um quarto. - repetiu e completou.
- Pois...
- Não.

Depois de tudo acertado, ele foi até seu aposento.
De início, ficou decepcionado quando percebeu que sua prancha seria inútil. A banheira estava ocupada por patos-de-borracha. Então ele não poderia surfar.

'Então a única coisa que alguém pode fazer nessa situação é se sentar na sacada', ele pensou. De lá, ele tinha uma vista privilegiada do mar-verde que se esticava pra longe.
Colocou o esqueiro na boca e ascendeu com o cigarro.

Percebeu, deitada na areia, uma linda moça. Belas curvas, seios voluptuosos. 'Ela é bem desejável!', ele pensou. Mas parecia que esse pensamento não o havia convencido.
- Ela é bem desejável! - agora ele disse em voz alta, para poder entender direito.

Ele pensou se iria até à praia falar com ela. Pensou se ela seria uma boa esposa, algum dia. Pensou novamente nos seios dela. Pensou, também, se ela poderia ter uma irmã advinda de uma barriga-sem-criatividade.

Enquanto ele pensava, a onda-do-mar-verde veio. E desmanchou. Carregou a moça de areia de volta pra água. Mas ele nem se abalou. O cigarresqueiro já tinha se apagado. Tudo já estava perdido.



por Gui em [3:28 PM]
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[Sábado, Janeiro 03, 2009]

a estrela negra da perdição



Quando me dei conta, eu enfrentava um monstro de mil olhos, mil garras, mil presas e mil asas. Pronto para me estraçalhar. Com o olhar gelado da morte. E o toque áspero do demônio.
Tínhamos o mesmo objetivo. Naquela noite escura. (Com lampejos dos desejos do fim). O alvo era a estrela negra do céu do sul. Cobiçada por homens e por deuses. E por monstros. Escondida por anos (e por panos) e tocada por poucos. Com a promessa do poder das artes e do amor eterno.

Seria só esticar o braço um pouquinho para obtê-la, se ela assim o permitisse. Mas somente ela decidiria a quem iria se entregar; assim dizia a profecia.

O Oráculo me disse que estrelas não brilham para meros mortais (simples anormais). E por isso só pude me conter. Em toda minha fúria e desejo.

A criatura das mil maldições usava suas garras. Cortava o céu. Rasgava. E assim o sangue foi derramado. E o céu ficou marcado. Com dentes. E suor. E mais sangue. E mais sangue.

Parecia ter conseguido. A estrela se desprendeu calmamente do seu repouso secular e uma das mil mãos amaldiçoadas pôde tocá-la; e sentir a força mesmerizante da estrela negra do poder da águia. Por um breve instante. Creio eu. Antes de voltar a sua morada celestial. Atrás de seu véu branco. Esperando até que novamente fosse descoberta, sob a coberta, sobre os lençóis... por um, dez, ou mais mil olhos.

Eu tinha certeza de que o monstro não tinha se extasiado o suficiente, e que no próximo eclipse voltaria. Para tentar mais uma vez. Conseguir mais uma vez. E me destruir mais uma vez.



por Gui em [7:19 PM]
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[Quinta-feira, Agosto 21, 2008]

as coisas lá de casa



lá em casa
as portas não rangem, rosnam
e as paredes não têm ouvidos, mas bocas que nunca se calam e me tiram o sono gostoso da tarde
lá em casa
é a privada que caga e não a gente
o fogão esfria e a geladeira é quente

atualmente a gente vive no escuro porque minha mãe decidiu que não quer mais dar à luz
e, tenho que confessar, meu pai teve um caso com a geladeira e, por isso, meu irmão é um microondas, mas não me preocupo muito; ele é daqueles de 25 litros, todo ajeitadinho, então tudo bem.



por Gui em [9:49 PM]
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[Terça-feira, Agosto 12, 2008]

prima vera



hoje meus pensamentos não florescem mais.
mas tenho esperança que na próxima primavera tudo volte ao normal.



por Gui em [3:18 PM]
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[Sexta-feira, Agosto 08, 2008]

sakura



todos que estavam na grama poderiam vê-lo sentado em baixo da cerejeira, mas estavam entediados demais com seus frisbees e cachorros saltitantes. ele também estava ocupado, alisava uma pena com a mão direita.
o vento soprava levemente, mas as folhas da cerejeira insistiam em cair. e as madames no parque insistiam em suas toalhas quadriculadas e piqueniques.
a Brisa falou em seu ouvido. ele compreendeu.
levantou-se, deu alguns passou e começou a subir. seu corpo não era forte, mas elas eram grandes. suas asas eram grandes e brancas. o Vento acariciava seu rosto e o Sol corava-lhe a face.

agora, mesmo que quisessem, as pessoas não poderiam vê-lo. já estava perto da Lua.



por Gui em [2:04 PM]
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[Segunda-feira, Julho 28, 2008]

gula



eu sou gorda.
alguns dizem que é porque como muito.
outros dizem que é porque me comem muito.
na verdade, minha psicóloga concluiu que engoli minha infância.



por Gui em [10:34 PM]
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epidemia das barrigas indigestas



há anos aquela dor de estômago o incomodava. virou-se sobre a privada e vomitou. vomitou o peixinho dourado dos tempos de infância. a dor não passou. mas agora o aquário havia sido reposto na sala de estar.



por Gui em [10:13 PM]
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[Segunda-feira, Julho 21, 2008]

o velhinho de chapéu



o velhinho do banco alimentava os pobres e voadores pombos da pracinha da esquina. mas aquele achado o espantou: a doce e leve pluma pousou em seu colo. e logo o menino apareceu:
- hum... o senhor poderia devolver a pena...? ela caiu da minha asa...


por Gui em [2:17 AM]
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